quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Eu sempre soube

Eu já esperava que um dia fosse cruzar seus olhos
E num relance perceber neles um espelho
Da alma que te vendi a prestações
Não é que acredite em destino ou coincidência
Somente no tempo que não segue uma ordem
Mas que entrecortado sempre faz sentido
Eu vi em ti uma porta de saída
Para o meu breu insistente de incertezas
Trazendo um lufar morno de ternura
Para quem já tinha feito da ciência a sua lei

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

No papel sou livre

Este poema não tem rima nem métrica
A rigor nem poema é
Nem tem a pretensão de ser lido e compreendido
Porque a liberdade é algo pessoal e que não se compreende
Eu mesmo tentei entender minha liberdade e me frustrei
Porque dentro das quatro linhas da vida ela não existe
É preciso ser marginal para sentí-la
Mas não um criminoso, apenas aquele que burla as leis da compreensão
Porque liberdade é não compreender o mundo
Principalmente a você mesmo, ainda que apenas intuitivamente
E mesmo assim, estar sempre a seu favor.

Instinto

Às vezes eu me pergunto se o coração que trago em meu peito me pertece
Ou se é parte do cosmos que se instalou em mim
Por que é tão grande a vontade aqui dentro?
Por que ele não aceita seu tamanho ínfimo na caixa torácica do universo?
Meu coração não pára de buscar e não é por cobiça
É uma vontade alheia a qualquer interesse tangível
É um eterno recomeçar de pontos zeros que ele mesmo cria
Que não são resultados de vitórias ou derrotas
Mas apenas pontos de partida do eterno vagar em círculos
Que é viver
Por isso eu peço, coração, nunca sossegue
Que bata forte até os meus últimos dias
Porque se bateres mais suave que meus desejos
É porque meus últimos dias já chegaram.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Máscara autêntica

As vezes me pergunto
Se máscaras podem ser autênticas
Pele sobre pele
Feitas da mesma verdade
Mas se os outro só veem a de fora
Tanto faz se são dez ou apenas uma
O que importa é o desconforto
De usar uma máscara
Quando posso ser cara lavada

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Chão firme

Me ensinaram a só atravessar ponte de concreto
Pra evitar as do tipo pênsil e as pinguelas
E com o tempo eu me vi com pernas rígidas
De musculatura que não me equilibram numa só perna
Nem a superar lamaçal recente
Para descobrir mais tarde que não há caminho firme
Para penetrar florestas fechadas
Em busca de pepitas de vida

terça-feira, 26 de julho de 2011

Dia meu

Ninguém precisa saber
Que a cada nascer do sol
Eu me prometo um dia
Que não precisa ser melhor
do que os que passaram
Mas sim promessa do dia seguinte
Um dia em que não preciso terminar melhor
Apenas transformado
Pelos minutos onde mergulhei
Ou por eles fui afundado
Que esse dia apenas me dê a chance
De por baixo da porta espiar o próximo

sábado, 23 de julho de 2011

Diálogo

O que eu falo não é o que você escuta
Por conta de um idioma exclusivo
Minha voz é o tradutor simultâneo
De uma angústia silenciosa
Que tenta preencher o vazio
Mas só faz mais ruído
Decibéis demais para um grito surdo
Como os raios de uma tempestade interior
Clamando pela bonança prometida

Contrato

O que você pode esperar?
Não vale nem promessa pra mim mesmo
Me alegra viver sem cartilha
Porque o dia é um garrancho
Que a noite passa a limpo
E se puder deixar espaços em branco
Como lapsos da perfeição
Tanto melhor
No final terei o manuscrito
Que eu quis para mim